Longa ausência, eu sei. E, no entanto, nada de muito importante para contar. "A vida", como dizem o Rod e o Woody Allen.
A busca de emprego, cada vez mais ansiosa. Estou farta de me sentir um desperdício de capacidades.
O curso de escrita terminou. Foi bom, mas passou rápido.
A minha irmã está de volta a Angola, em trabalho, por um mês. O que significa que nos próximos trinta dias devo habituar-me ao semblante mais pesado dos meus pais e fingir que não me incomoda.
Exercício físico, a correr cada vez melhor.
Ideias, muitas ideias na cabeça, há demasiado tempo. A tentar organizar-me para as deixar viver cá fora.
Escuteiros e catequese, sem parar. Gosto cada vez mais das minhas crianças que crescem tão depressa e dizem coisas como: "Catequista... Eu tinha uma dúvida e no outro dia perguntei à minha mãe. Já não me lembro bem. Mas eu disse-lhe: Se Jesus está no coração de toda a gente, como é que ele faz? Parte-se em bocadinhos ou está inteiro em todos? A minha mãe disse que ele está sempre inteiro porque é mágico".
Como pano de fundo, a música que alimenta os meus dias e os enche de alento. Como um balão cheio de oxigénio.
Até já.
terça-feira, 2 de março de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
A Camisola de Outono
Respondendo ao desafio do Rod, aqui fica um texto da aula de ontem, sobre Realismo e Hiper-realismo, ou a força da banalidade. Quinze minutos para escrever sobre o tema "A Camisola de Outono".
Despertas com a música do rádio. Recordas a tua intenção de te levantares cedo. Duas ou três voltas na cama e meia hora depois, estendes o braço para o desligar.
Olhas para a janela, de frente para a cama. A persiana fechada até ao fundo, como tanto gostas, não te deixa adivinhar o tempo que faz nessa manhã de Outubro.
Segues para a cozinha a beber o copo de água em jejum que a tua mãe enfermeira recomendou durante toda a vida. A seguir, outro ritual: abres a janela, debruças-te e avalias a temperatura, a intensidade do Sol e a velocidade do vento com a tua cara. Fechas os olhos, para sentires melhor.
“Que bom, está um daqueles dias de Outono muito frios e luminosos!” – pensas para ti própria, enquanto abres os olhos, a sorrir.
Pendurada pelos braços na janela, dobrando para trás as pernas pelos joelhos, para alongares os músculos, ficas mais um pouco a desfrutar o momento.
Do outro lado da rua, o centro e treze acaba de chegar de Belém e as pessoas apressam-se a entrar. São nove horas em ponto quando regressas ao quarto para vestir aquela camisola de Outono de lã azul petróleo.
Hoje o dia começou assim.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Letras
Um dos meus livros favoritos é "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera. Quando o li, identifiquei-me totalmente com a noção de peso que existe por detrás de algumas profissões ou actividades, pelo menos para algumas pesssoas.
Eu sou, sem dúvida, uma delas. Digo-o em forma de constatação, não necessariamente com orgulho - na verdade, muitas vezes desejo a tal leveza. Mas a verdade é que, para mim, o sentido da vida tem a ver com a descoberta de um sentido maior para quase tudo o que faço. Fazer por fazer não me basta, a vida não pode ser só isso.
Acho que esta forma de encarar as coisas não se escolhe, simplesmente vai-se desenvolvendo até sem nos apercebermos. Mas há uma altura em que se torna consciente - o que, para mim, foi um enorme alívio. Percebi o tipo de coisas que gosto de fazer: trata-se de contribuir para algo que considero maior, válido, daquelas coisas que realmente dão sentido à vida.
Bem, mas tudo isto para falar sobre algo que considero ser uma manifestação disto mesmo. Neste caso, a música. Ou, melhor, a letra.
É que, por norma, as músicas que realmente me interessam são as que transmitem uma mensagem. Ao ponto de ouvir uma coisa nova e, se gostar, pensar de imediato: "Deixa lá ver a letra". Ou ao contrário: ao ouvir, reparar de imediato na letra e, uma música cuja melodia nem me atrai especialmente, se poder tornar numa paixão arrebatadora.
Seguindo este raciocínio, não tenho qualquer dúvida de que Jorge Palma é um dos maiores músicos portugueses. É incrível a fidelidade com que consegue traduzir até os sentimentos humanos mais banais, que muitas vezes são os mais difíceis de transpor em palavras. Ainda por cima encaixa-as em músicas brilhantes. Abaixo, uma das minhas preferidas...
Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda
Perde a estúpida inocência
Dia após dia
Para aonde ia
Disse fêmea
Mulher feita
Mal eu sabia
Que a vida rouba os sonhos
Mal eu sabia
Que o mundo nos desmama
De paixões surdas,
Cava na cara
Sulcos secos,
Sulcos secos
Disse fêmea
Mulher feita
Faz-te fêmea
Ama-te a ti mesma
O mundo espera
Cheio de tudo
Come-o, feliz, sã, gloriosa, cheia
Diz-te fêmea
Mulher feita
Eu não sabia
Que nascemos sombras
Eu não sabia
Que todos têm medo
De falhar, de perder
Não há braços de fêmea
Para embalar
O mundo
Disse fêmea
Mulher feita
Acabou-se o que era doce
Acabaram-se os amantes
O preço da mão estendida é
A pagar, a pagar,
Mais cedo ou mais tarde
Não repitas os meus erros
Menina feita mulher
Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda, muda, muda
Perde essa estúpida inocência
Dia após dia,
Após dia,
Para aonde ia
Disse fêmea
Menina feita mulher
Menina feita mulher
Menina feita mulher.
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda
Perde a estúpida inocência
Dia após dia
Para aonde ia
Disse fêmea
Mulher feita
Mal eu sabia
Que a vida rouba os sonhos
Mal eu sabia
Que o mundo nos desmama
De paixões surdas,
Cava na cara
Sulcos secos,
Sulcos secos
Disse fêmea
Mulher feita
Faz-te fêmea
Ama-te a ti mesma
O mundo espera
Cheio de tudo
Come-o, feliz, sã, gloriosa, cheia
Diz-te fêmea
Mulher feita
Eu não sabia
Que nascemos sombras
Eu não sabia
Que todos têm medo
De falhar, de perder
Não há braços de fêmea
Para embalar
O mundo
Disse fêmea
Mulher feita
Acabou-se o que era doce
Acabaram-se os amantes
O preço da mão estendida é
A pagar, a pagar,
Mais cedo ou mais tarde
Não repitas os meus erros
Menina feita mulher
Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda, muda, muda
Perde essa estúpida inocência
Dia após dia,
Após dia,
Para aonde ia
Disse fêmea
Menina feita mulher
Menina feita mulher
Menina feita mulher.
P.S.: A propósito de "letras", comecei hoje um curso de escrita criativa com Alice Vieira. Estou orgulhosa porque fui seleccionada entre vários candidatos, e é gratificante estar num grupo de gente de áreas muito variadas e com interesse pela escrita. Espero que ajude a despertar o meu pensamento fora da caixa!
domingo, 3 de janeiro de 2010
Zombieland
Sem convicção e acompanhada por um amigo cinéfilo, fui ver este filme, sugerido por ele, do qual não conhecia mais que o nome e a etiqueta "comédia terror".
Assisti reticente aos primeiros minutos e estava quase a arrepender-me da escolha, quando a acção diante dos meus olhos começou a tornar-se mais interessante. E a curva ascendente continuou até que, no final, me lembrei que não tinha chegado a sair da sala como tinha estado prestes a decidir.
Talvez um espectador mais informado tivesse notado logo no início aquilo de que eu apenas me apercebi com a última frase da personagem principal: a narrativa é baseada nesta música de Baz Luhrmann.
Hei-de revê-lo um dia, já com essa constatação em mente, pra reparar bem nas pontes entre as duas histórias.
Assisti reticente aos primeiros minutos e estava quase a arrepender-me da escolha, quando a acção diante dos meus olhos começou a tornar-se mais interessante. E a curva ascendente continuou até que, no final, me lembrei que não tinha chegado a sair da sala como tinha estado prestes a decidir.
Talvez um espectador mais informado tivesse notado logo no início aquilo de que eu apenas me apercebi com a última frase da personagem principal: a narrativa é baseada nesta música de Baz Luhrmann.
Hei-de revê-lo um dia, já com essa constatação em mente, pra reparar bem nas pontes entre as duas histórias.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Pendente
Não sei o que diz o dicionário, mas tomemos algo pendente como uma coisa inacabada que é preciso terminar.
Este é um daqueles conceitos que à primeira vista parece totalmente insignificante. Para uma criança, não deve ter qualquer significado; para um adolescente, talvez se possa referir aos TPC's.
No entanto, tal como eu o vejo, é um conceito que se vai enchendo de significado ao longo da vida, embora talvez a maioria das pessoas não tome (ou não queira tomar) consciência disso.
Nos anos '90, corria entre as adolescentes portuguesas o hábito de fazer inquéritos em cadernos a serem preenchidos pela(o)s amiga(o)s. Uma das perguntas recorrentes era: "Qual o teu maior medo?". Lembro-me de alguma vez ter respondido ou lido algures a seguinte resposta: "De um dia não conseguir dormir por ter a consciência pesada".
Sou só eu, ou isto faz mesmo todo o sentido?? A vida tem as suas coisas e esta é, de facto, uma delas. Só não percebo por que ainda não inventaram a sinaléctica adequada pra avisar do perigo, assim tipo reclames luminosos a piscar repetidamente.
Sim, já passei por isso, e não o desejo a ninguém. É realmente um dos riscos que corremos ao viver. Outro é, por estas e por outras, ir ficando com "assuntos pendentes" que, sem darmos por isso, um dia nos fazem olharmo-nos ao espelho e não reconhecer a pessoa que vemos. E que, mesmo muito tempo depois, de feridas saradas e com uma nova vida pela frente, podem sempre voltar a assaltar-nos, e com toda a legitimidade.
E depois... Fazer o quê? Seguir em frente como se não fosse nada e poupar-nos ao sofrimento? Ou recuar um pouco para acabar de vez com o esqueleto no armário? Como se isso fosse possível... E conseguíssemos mesmo controlar todo o processo sem nos vermos no meio de um turbilhão de nós e encruzilhadas...
Este é um daqueles conceitos que à primeira vista parece totalmente insignificante. Para uma criança, não deve ter qualquer significado; para um adolescente, talvez se possa referir aos TPC's.
No entanto, tal como eu o vejo, é um conceito que se vai enchendo de significado ao longo da vida, embora talvez a maioria das pessoas não tome (ou não queira tomar) consciência disso.
Nos anos '90, corria entre as adolescentes portuguesas o hábito de fazer inquéritos em cadernos a serem preenchidos pela(o)s amiga(o)s. Uma das perguntas recorrentes era: "Qual o teu maior medo?". Lembro-me de alguma vez ter respondido ou lido algures a seguinte resposta: "De um dia não conseguir dormir por ter a consciência pesada".
Sou só eu, ou isto faz mesmo todo o sentido?? A vida tem as suas coisas e esta é, de facto, uma delas. Só não percebo por que ainda não inventaram a sinaléctica adequada pra avisar do perigo, assim tipo reclames luminosos a piscar repetidamente.
Sim, já passei por isso, e não o desejo a ninguém. É realmente um dos riscos que corremos ao viver. Outro é, por estas e por outras, ir ficando com "assuntos pendentes" que, sem darmos por isso, um dia nos fazem olharmo-nos ao espelho e não reconhecer a pessoa que vemos. E que, mesmo muito tempo depois, de feridas saradas e com uma nova vida pela frente, podem sempre voltar a assaltar-nos, e com toda a legitimidade.
E depois... Fazer o quê? Seguir em frente como se não fosse nada e poupar-nos ao sofrimento? Ou recuar um pouco para acabar de vez com o esqueleto no armário? Como se isso fosse possível... E conseguíssemos mesmo controlar todo o processo sem nos vermos no meio de um turbilhão de nós e encruzilhadas...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Post natalício
Natal para mim é sinónimo de família. De árvore de Natal na sala; serões a ver televisão enrolados todos na mesma mantinha; de músicas infantis como os Queijinhos Frescos e o coro de Santo Amaro de Oeiras, ao som das quais eu e a minha irmã dançávamos alegremente a correr à volta da mesinha da sala, o que não tão raramente originava a destruição de um qualquer objecto decorativo precioso da minha mãe; daqueles calendários de Advento com chocolates que sempre consumi em apenas uma semana; dos outros chocolates embrulhados em prata que se penduram na árvore de Natal, e com que eu e a minha irmã delirávamos porque os meus pais os escondiam pela sala e tinhamos que os encontrar com o jogo do "quente e frio" antes de os pendurarmos na dita árvore; enfim... é o tempo em que se tornam tão presentes alguns dos momentos mais felizes da minha infância, como as típicas manhãs de sábado em que eu e a Inês nos levantávamos sorrateiramente da cama para ir ver o Lecas na televisão, enquanto nos divertiamos a colorir desenhos na mesa da sala.
Mas Natal é sinónimo de família também num sentido mais abrangente: de tudo o que é querido e familiar. Por isso, para mim, é tempo de estar rodeada de amigos, daqueles bem próximos, que são no fundo a família que fui escolhendo. É tempo de ir ao cinema ver comédias românticas ou não, de ir beber um chocolate bem quentinho enquanto se diz muita parvoíce, e é tempo de muitos projectos conjuntos na paróquia e nos escuteiros que ponham os putos alegres e contentes a começar a construir a "sua" família.
No fundo, eu sempre adorei o Natal! E é tão bom perceber que continua a ser das minhas alturas preferidas do ano =)
Mas Natal é sinónimo de família também num sentido mais abrangente: de tudo o que é querido e familiar. Por isso, para mim, é tempo de estar rodeada de amigos, daqueles bem próximos, que são no fundo a família que fui escolhendo. É tempo de ir ao cinema ver comédias românticas ou não, de ir beber um chocolate bem quentinho enquanto se diz muita parvoíce, e é tempo de muitos projectos conjuntos na paróquia e nos escuteiros que ponham os putos alegres e contentes a começar a construir a "sua" família.
No fundo, eu sempre adorei o Natal! E é tão bom perceber que continua a ser das minhas alturas preferidas do ano =)
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