Encontrei isto no Citador:
O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir.
Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante, mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender.
Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se.
Fernando Pessoa (Barão de Teive), in 'A Educação do Estóico'
Nunca li este livro de Pessoa, mas fiquei com a maior curiosidade em conhecê-lo. É incrível como este excerto traduz os meus sentimentos desde há já algum tempo.
Suspeito que nunca na história da Humanidade se conviveu tão mal com o erro como agora. Crescemos a ouvir dizer que errar é humano, mas somos constantemente castigados por não acertar à primeira; dizem-nos que ninguém é perfeito, mas basta um superficial olhar à volta para perceber que não há ninguém que não faça tudo por tudo para ser o supra-sumo de alguma coisa... ou de tudo. Em termos de educação, não é raro identificar situações em que as crianças são "testadas" sobre coisas que ninguém se deu ao trabalho de lhes explicar devidamente antes. Porque o que importa é acertar. À primeira. Sempre. A qualquer custo.
Penso que cresci com uma baixa tolerância ao erro. Aos meus erros. Suponho que tal pode ser generalizável aos bons alunos, sobretudo aos que sofrem de um mal chamado perfeccionismo. Só é pena essa intolerância não fazer com que eles (os erros) desapareçam... Nem sequer com que deixem de ser os mesmos, frequentemente.
E assim chegamos a uma hipótese que ponho à consideração - e sobre a qual gostava de ter o vosso feedback, queridos bloggers: Será que o dito "pensar na sensibilidade dos outros" não vem, pura e simplesmente, do medo de errar? "Ah e tal, sou uma pessoa sensível, tenho em conta a opinião de cada um" - é muito bonito e diplomático e tal, mas não será apenas a versão politicamente correcta de "sou extremamente inseguro e não tomo posição sobre nada porque tenho medo de errar e não saberia lidar com isso"?
Por último, e as a bottomline: Afinal, o que pode o erro implicar de tão negativo?
Será que ao esquivar-nos dele nos esquivamos de viver?
* Com alguma pena, não fui ver a exposição que esteve na Lx Factory até dia 24, mas o conceito escolhido foi tão bom que bastou para me pôr a pensar...

1 comentário:
penso que tens razão. aliás, tenho amigos meus que pensam assim. não agem com medo de ferir as sensibilidades deste ou daquele. o problema é que esse sentimento acaba por isolar essa pessoa, podendo levá-la inconscientemente a uma depressão.
tenho um amigo meu que já foi a tantas entrevistas (mais de 10 desde o verão), que agora passou a ter medo, e entra em pânico! faz sentido? talvez, segundo o que disseste. talvez ele tenha medo de falhar novamente.. é triste.
mas se queres que te diga, é preciso saber relativizar o problema. nós somos influenciados pela sociedade em que vivemos, e esta sociedade exalta as pessoas que têm sucesso à primeira, ou que "constroem" uma carreira sólida numa única área durante 50 anos..
esta sociedade não lida bem com os falhados, com os azarados. são mal vistos e acabam por ser excluídos.
agora, se pensarmos por exemplo na islândia, ficamos certamente surpreendidos por saber que o erro faz parte do quotidiano e é bem visto! é normal uma pessoa ter 3, 4, 5 trabalhos diferentes e não acertar em nenhum. se quiseres ser bancária o estado apoia-te, se quiseres ser escritora ou artista o estado apoia-te, se quiseres ser músico o estado apoia-te.
têm a taxa de desemprego mais baixa do mundo, e uma das taxas de insucessos mais elevada; no entanto, está provado que são o país mais feliz do mundo.
às vezes penso que muitos dos problemas sociais que temos poderiam ser resolvidos se mudássemos de local de acordo com a nossa personalidade.
nascemos em portugal, mas será que a nossa maneira de ser está de acordo com a cultura e os hábitos deste país? os nossos pés têm raízes tão grandes, que só o facto de nos movermos no próprio país já gera uma inércia brutal
o mundo é um local tão grande que é difícil acreditar que nascemos exactamente no local que mais tem a ver connosco..
há que procurar a felicidade.. se ela não está presente nesta sociedade mesquinha, porque continuamos a insistir?
just move on :)
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